Comunhão universal de bens: o que significa e como funciona

Na comunhão universal de bens, quase tudo vira do casal: o que cada um tinha antes de casar, o que for comprado depois e até parte das dívidas. Mas existem exceções, e elas costumam pesar no divórcio e no inventário.

imagem representando comunhão universal de bens
Comunhão universal de bens: o que significa e como funciona?

Em 2025, os cartórios brasileiros registraram 70.289 pactos antenupciais, segundo o Colégio Notarial do Brasil. É por esse documento que passa quem quer a comunhão universal de bens.

A comunhão universal aparece em dois cenários: casais que escolheram o regime em cartório e casais que se casaram antes de 1977, quando ele era a regra. Nos dois casos, a lógica é a mesma. Os bens de antes, os de depois e boa parte das dívidas formam um patrimônio só.

Com quase 10 anos de atuação, o VLV Advogados acompanha divórcios e inventários em que conferir o regime de bens certo muda todo o resultado da partilha.

Neste texto, você vai ver o que significa comunhão universal de bens, o que fica de fora da divisão, como ficam as dívidas e a herança e como o regime é adotado. Em caso de dúvidas sobre seu caso, clique aqui para falar com um especialista do VLV Advogados.

O que significa comunhão universal de bens?

Comunhão universal de bens significa que quase todo o patrimônio do casal se torna comum: entram os bens que cada um tinha antes de casar, os que forem adquiridos depois e as dívidas, com as exceções previstas em lei. É o que diz o art. 1.667 do Código Civil.

Não importa quem comprou, em nome de quem o bem está registrado ou quando ele foi adquirido: cada cônjuge passa a ser dono de metade do conjunto, o que se chama de meação.

O regime não é automático. Desde a Lei do Divórcio (Lei 6.515/1977), publicada em 27 de dezembro de 1977, quem não escolhe nada se casa em comunhão parcial, e a comunhão universal passou a depender de pacto antenupcial.

Para os casamentos anteriores a essa data, sem pacto, ela era a regra, como previa o art. 258 do Código Civil de 1916.

As expressões comunhão total de bens, regime universal de bens e casamento universal de bens se referem a esse mesmo regime.

“A certidão de casamento é o primeiro documento que pedimos em divórcios e inventários de casais mais antigos. É comum que a família presuma um regime e o registro indique outro, e isso muda completamente o desenho da partilha.”
Dr. Luiz Vasconcelos Jr., OAB/BA 43.462

O que não entra na comunhão universal de bens?

Não entram na comunhão universal os bens que a lei exclui no art. 1.668 do Código Civil. Os principais são:

Há um detalhe pouco lembrado: mesmo quando o bem fica de fora, os frutos que ele gera durante o casamento, como aluguéis, se comunicam (art. 1.669 do Código Civil).

Heranças e doações recebidas durante o casamento entram na divisão?

Sim, heranças e doações recebidas durante o casamento entram na divisão na comunhão universal, ainda que só a família de um dos cônjuges tenha transmitido o bem.

A forma de afastar esse efeito é a cláusula de incomunicabilidade (art. 1.668, I, do Código Civil).

Quem define essa cláusula é quem transmite o bem, no testamento ou na escritura de doação, e não o casal.

Quando ela recai sobre a legítima, a parte da herança reservada aos herdeiros necessários, o art. 1.848 do Código Civil exige que a justa causa esteja declarada no testamento.

Caso inspirado em situações atendidas pelo VLV Advogados: no divórcio de um casal em comunhão universal, um dos cônjuges tinha comprado dois imóveis antes do casamento, e o outro recebeu de um tio, durante a união, um apartamento com cláusula de incomunicabilidade.

Os imóveis anteriores entraram na meação, porque o regime comunica o que cada um já tinha; o apartamento doado ficou só com quem o recebeu, por causa da cláusula.

Nesse exemplo, foi a conferência das escrituras que definiu o desenho da partilha.

Como ficam as dívidas na comunhão universal de bens?

Na comunhão universal de bens, as dívidas também se comunicam: o art. 1.667 do Código Civil inclui as dívidas passivas no patrimônio comum, e por isso os bens do casal podem responder por elas.

A exceção são as dívidas anteriores ao casamento, que continuam sendo de quem as fez, salvo se vieram dos gastos com o próprio casamento ou beneficiaram os dois (art. 1.668, III). Na prática, cabe a quem cobra provar que a dívida antiga reverteu em proveito do casal.

Durante o casamento, alguns atos dependem da autorização do outro cônjuge, como prestar fiança ou aval (art. 1.647, III, do Código Civil). Sem essa autorização, o ato pode ser anulado.

Como fica a divisão de bens no divórcio e no falecimento?

A divisão de bens no divórcio e no falecimento segue uma regra única: metade para cada um. Como o patrimônio é comum, não se discute quem comprou, quem pagou ou quando o bem foi adquirido.

No divórcio, o casal parte do conjunto todo e separa 50% para cada lado, retirando antes apenas os bens excluídos pelo art. 1.668.

Os tribunais têm considerado a data da separação de fato como marco final da comunicação, de modo que bens adquiridos depois dela podem ficar fora da partilha, o que depende da prova da data.

No falecimento, há uma etapa a mais. Primeiro se separa a meação do cônjuge sobrevivente, que já era dele e não é herança. Só a outra metade, que pertencia ao falecido, forma a herança a ser partilhada no inventário.

Ainda tem dúvidas sobre como funciona a divisão de bens?

Quem é casado em comunhão universal tem direito à herança?

Quem é casado em comunhão universal não tem direito à herança quando o falecido deixa filhos ou outros descendentes: o art. 1.829, I, do Código Civil exclui esse cônjuge da concorrência com eles.

Nesse caso, ele fica com a meação, e a metade do falecido vai para os descendentes.

Se não houver descendentes, o cenário muda: o cônjuge concorre com os ascendentes e, na falta de ambos, recebe a herança por inteiro.

Esse desdobramento está detalhado no conteúdo sobre direito à herança na comunhão universal de bens.

Qual a diferença entre comunhão universal e comunhão parcial de bens?

A diferença entre comunhão universal e comunhão parcial de bens está no que entra na divisão.

Na comunhão parcial, só se comunicam os bens adquiridos onerosamente durante o casamento; na universal, comunicam-se também o patrimônio que cada um tinha antes e as heranças e doações recebidas na constância da união.

Outra distinção é a forma de adoção: a comunhão parcial é o regime legal, aplicado automaticamente, e a universal depende de pacto antenupcial.

Comunhão parcial x comunhão universal

SituaçãoComunhão parcialComunhão universal
Bens que cada um tinha antes do casamentoNão se comunicamComunicam-se
Bens comprados durante o casamentoComunicam-seComunicam-se
Herança ou doação recebida durante o casamentoNão se comunicam, em regraComunicam-se, salvo cláusula de incomunicabilidade
Dívidas anteriores ao casamentoNão se comunicam, em regraNão se comunicam, salvo aprestos ou proveito comum
Como é adotadoAutomático, sem pactoExige pacto antenupcial

Como adotar a comunhão universal de bens?

Para adotar a comunhão universal de bens, o casal precisa fazer um pacto antenupcial por escritura pública antes do casamento. O caminho tem quatro etapas:

  1. Elaborar o pacto antenupcial, documento em que os noivos declaram a escolha pela comunhão universal.
  2. Lavrar a escritura pública no Tabelionato de Notas. A forma pública é requisito de validade, e o pacto é nulo sem ela (art. 1.653 do Código Civil).
  3. Casar depois da escritura. O pacto só produz efeitos com a celebração do casamento.
  4. Registrar a escritura no Registro de Imóveis do domicílio do casal, para que o regime valha perante terceiros, como credores e compradores (art. 1.657).

Nem todos podem escolher esse regime. O art. 1.641 do Código Civil impõe a separação obrigatória a quem se casa com causa suspensiva e a quem depende de suprimento judicial para casar.

Para maiores de 70 anos, o STF decidiu, em 1º de fevereiro de 2024, que a separação obrigatória pode ser afastada por escritura pública (ARE 1.309.642, Tema 1.236), o que permite optar inclusive pela comunhão universal.

Qual a vantagem de casar com comunhão universal de bens?

A principal vantagem de casar com comunhão universal de bens é a igualdade patrimonial completa: tudo é dos dois, e a partilha não exige discutir a origem de cada bem. Em troca, a divisão e a responsabilidade por dívidas ficam bem mais amplas.

Na prática, os pontos favoráveis e os pontos de atenção são:

Vantagens e pontos de atenção

Pontos favoráveisPontos de atenção
Igualdade patrimonial completa, sem distinção entre o que cada um trouxeO patrimônio anterior ao casamento entra na divisão
Partilha mais simples, sem discutir a origem de cada bemHeranças e doações se comunicam, salvo cláusula de incomunicabilidade
Gestão financeira conjuntaAs dívidas passivas se comunicam, salvo as anteriores ao casamento
Proteção ao cônjuge que não teve renda própriaMudar de regime depois exige autorização judicial

Quem tem patrimônio anterior relevante, atividade empresarial ou expectativa de herança costuma avaliar esses pontos com mais cuidado antes de assinar o pacto.

Como saber se a comunhão universal é adequada ao seu caso

casal analisando documentos sobre comunhão universal de bens
Como saber se a comunhão universal é adequada ao seu caso

Não existe uma resposta única. A escolha depende do patrimônio que cada um já tem, da atividade profissional dos dois, da existência de dívidas e da expectativa de heranças ou doações ao longo do casamento.

Para quem ainda vai casar, a avaliação passa pelo levantamento do que cada um possui hoje e pela leitura atenta do pacto antes de assiná-lo.

Para quem já é casado, o ponto de partida é diferente: é preciso confirmar na certidão de casamento qual regime consta do registro, especialmente em uniões celebradas antes de dezembro de 1977 ou com pacto antigo.

Em qualquer dos dois cenários, a análise dos documentos por um advogado de família permite entender com precisão o que entra e o que fica de fora da divisão, e quais alternativas existem caso o regime atual não corresponda à realidade do casal.

Em caso de dúvidas, clique aqui para falar com um especialista do VLV Advogados.

Artigo de caráter meramente informativo elaborado por profissionais do VLV Advogados

Sobre o autor

Dr. Luiz Vasconcelos Jr. é advogado inscrito na OAB sob o nº 43.462, cogestor do VLV Advogados e atua em Direito das Famílias e Sucessões. Possui formação complementar pela AASP em temas de Direito Civil, Família e Sucessões, além de estudos pela PUC-Rio nas áreas de alienação parental e perícias psicológicas.

Direito Civil | Direito de Família | Direito Criminal | Direito Previdenciário | Direito Trabalhista | Direito Bancário

Perguntas frequentes

Dá para mudar para a comunhão universal depois de casado?

Sim, dá para mudar para a comunhão universal depois de casado, mas só com autorização judicial, em pedido dos dois cônjuges com justificativa e sem prejuízo a terceiros (art. 1.639, §2º, do Código Civil). Depois da decisão, o novo regime precisa ser averbado no registro do casamento.

Na união estável, dá para adotar a comunhão universal?

Sim, na união estável dá para adotar a comunhão universal, por meio de contrato escrito entre os companheiros (art. 1.725 do Código Civil), de preferência por escritura pública. Sem esse contrato, vale a comunhão parcial.

O salário entra na comunhão universal?

O salário, em si, não entra na comunhão universal, porque a lei exclui os proventos do trabalho pessoal de cada cônjuge (art. 1.668, V, e art. 1.659, VI, do Código Civil). Mas o que foi recebido e guardado ou investido durante o casamento, segundo o entendimento do STJ, passa a integrar o patrimônio comum.

Preciso da autorização do cônjuge para vender um imóvel?

Sim, você precisa da autorização do cônjuge para vender um imóvel na comunhão universal, como em todos os regimes, salvo a separação absoluta (art. 1.647, I, do Código Civil). Sem ela, a venda pode ser anulada em até 2 anos depois do fim da sociedade conjugal (art. 1.649).

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Autor

  • Dr. Luiz Vasconcelos Jr

    OAB 43.462 - Advogado familiarista e cogestor do VLV Advogados, pós graduado em Direito Público e Privado.

    Bacharel em Direito pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e Capacitação pela AASP e TRIADE/IBDFAM em questões de direito civil, especialmente direito das famílias/sucessões (inventário) e pela PUC/RJ em alienação parental e perícias psicológicas

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