DenĂșncia ou queixa-crime: quando cada um se aplica?

Qual Ă© a diferença entre denĂșncia e queixa-crime e qual delas vocĂȘ deve usar para buscar seus direitos? Saiba quando cada uma Ă© cabĂ­vel e entenda como proteger seus interesses na justiça! 

Mulher realizando denĂșncia ou queixa-crime
DenĂșncia ou queixa-crime: quando cada um se aplica?

DenĂșncia e queixa-crime sĂŁo as duas portas de entrada de um processo criminal, e escolher a errada pode custar o seu direito de processar alguĂ©m.

A confusĂŁo Ă© comum e compreensĂ­vel. No dia a dia, falamos em “denunciar” e em “dar queixa” como se fossem a mesma coisa, mas o Direito trata cada uma de um jeito bem diferente.

O VLV Advogados atua diariamente com casos de Direito Criminal em todo o Brasil e vĂȘ essa dĂșvida aparecer com frequĂȘncia, quase sempre quando o prazo jĂĄ estĂĄ correndo.

Saber quem pode agir, em quais crimes e dentro de qual prazo muda completamente o resultado. A seguir, vocĂȘ vai entender essa diferença de forma simples e descobrir qual caminho serve para a sua situação.

QuestÔes criminais costumam gerar insegurança, e saber qual caminho seguir é o primeiro passo para não perder um direito. Se quiser orientação sobre a sua situação, clique aqui para falar com um especialista do VLV Advogados.

O que Ă© uma denĂșncia?

A denĂșncia Ă© a peça que dĂĄ inĂ­cio Ă  ação penal pĂșblica e sĂł pode ser apresentada pelo MinistĂ©rio PĂșblico. Ela Ă© a acusação formal levada ao juiz quando o promotor entende que existem indĂ­cios suficientes de autoria e de que o crime realmente aconteceu.

Esse Ă© o ponto que mais gera confusĂŁo: vocĂȘ nĂŁo oferece denĂșncia. Quando alguĂ©m vai Ă  delegacia relatar um crime, o nome tĂ©cnico disso Ă© notĂ­cia-crime, e Ă© dela que pode nascer um inquĂ©rito policial. A denĂșncia vem depois da investigação, e Ă© privativa do MP. 

A regra estå no artigo 24 do Código de Processo Penal. Ela vale para a maioria absoluta dos crimes no Brasil, incluindo os patrimoniais, como roubo e furto, em que a vontade da vítima não interfere na atuação da Justiça.

Para dar dimensĂŁo a quem faz esse trabalho: segundo o painel “MinistĂ©rio PĂșblico: um retrato” divulgado pelo Conselho Nacional do MinistĂ©rio PĂșblico em junho de 2025, com dados de 2024, o MinistĂ©rio PĂșblico brasileiro reunia 13.611 membros e 38.302 servidores. É essa estrutura que responde por toda a ação penal pĂșblica do paĂ­s.

O que Ă© uma queixa-crime?

A queixa-crime é a petição inicial da ação penal privada, apresentada pela própria vítima por meio de advogado. Aqui a lógica se inverte: o Estado entende que o interesse em punir é mais individual do que coletivo, então a iniciativa fica com quem foi ofendido.

É o caminho tĂ­pico dos crimes contra a honra, como a calĂșnia, a difamação e a injĂșria. Na ação penal privada, a vĂ­tima passa a se chamar querelante e o acusado, querelado.

Diferente da denĂșncia, a queixa-crime exige advogado com procuração com poderes especiais, que precisa mencionar o nome do querelante e o fato criminoso (artigo 44 do CPP).

Para ser recebida pelo juiz, ela precisa conter os mesmos requisitos da denĂșncia, previstos no artigo 41 do CPP:

Faltando a descrição do fato ou a identificação do acusado, a peça pode ser rejeitada por inĂ©pcia. 

Qual a diferença entre denĂșncia e queixa-crime?

A diferença entre denĂșncia e queixa-crime estĂĄ em quem tem o direito de acusar. A denĂșncia Ă© oferecida pelo MinistĂ©rio PĂșblico nos crimes de ação penal pĂșblica. A queixa-crime Ă© apresentada pela vĂ­tima, com advogado, nos crimes de ação penal privada.

Na prĂĄtica, isso define quem toma a iniciativa, quanto tempo vocĂȘ tem, quem paga as custas e atĂ© se o processo pode ser encerrado por vontade das partes.

CritĂ©rio DenĂșncia Queixa-crime
Tipo de ação Ação penal pĂșblica Ação penal privada
Quem apresenta MinistĂ©rio PĂșblico VĂ­tima, por meio de advogado
Precisa de advogado NĂŁo, para a vĂ­tima Sim, com poderes especiais
Prazo 5 dias (réu preso) ou 15 dias (réu solto) 6 meses a partir do conhecimento da autoria
Depende da vontade da vĂ­tima NĂŁo, na modalidade incondicionada Sim, integralmente
Pode ser encerrada por perdĂŁo NĂŁo Sim, se o querelado aceitar
Exemplos HomicĂ­dio, roubo, trĂĄfico de drogas CalĂșnia, difamação, injĂșria

Vale registrar um detalhe pouco lembrado: o MinistĂ©rio PĂșblico nĂŁo pode desistir da ação penal (artigo 42 do CPP). JĂĄ na ação privada, a vĂ­tima pode perdoar o querelado, e o processo se encerra se ele aceitar. 

Essa assimetria explica por que crimes graves contra a pessoa, listados entre os crimes contra a pessoa mais frequentes, seguem adiante mesmo sem o interesse de quem foi vĂ­tima.

Qual a diferença entre BO e denĂșncia?

O boletim de ocorrĂȘncia e a denĂșncia estĂŁo em etapas completamente diferentes do caminho criminal. O BO Ă© o registro do fato na delegacia. A denĂșncia Ă© a acusação formal jĂĄ apresentada ao juiz pelo MinistĂ©rio PĂșblico.

O percurso normal funciona assim:

  1. Boletim de ocorrĂȘncia: vocĂȘ comunica o fato Ă  polĂ­cia. É um ato administrativo, nĂŁo um processo.
  2. Inquérito policial: a autoridade policial investiga, colhe provas e busca identificar a autoria.
  3. DenĂșncia: com o inquĂ©rito em mĂŁos, o MinistĂ©rio PĂșblico decide se acusa, se pede mais diligĂȘncias ou se requer o arquivamento.
  4. Recebimento pelo juiz: só a partir daí o acusado vira réu e a ação penal começa.

Ou seja, registrar um boletim de ocorrĂȘncia Ă© o começo da histĂłria, nĂŁo o fim. Hoje boa parte dos estados jĂĄ permite o registro do BO pela internet para situaçÔes sem violĂȘncia imediata, o que facilita o primeiro passo, mas nĂŁo muda a natureza do documento.

Como observa o Dr. JoĂŁo Valença, advogado de Direito Criminal do VLV Advogados: “Muita gente sai da delegacia achando que jĂĄ processou alguĂ©m. O boletim apenas informa o fato Ă s autoridades. Entre ele e uma acusação formal existe uma etapa inteira de investigação, e em alguns crimes essa etapa nem sequer Ă© suficiente.”

Qual a diferença entre boletim de ocorrĂȘncia e queixa-crime?

O boletim de ocorrĂȘncia comunica o fato Ă  polĂ­cia. A queixa-crime inicia o processo perante o juiz. Nos crimes de ação penal privada, o BO sozinho nĂŁo faz absolutamente nada avançar.

Esse Ă© o erro mais caro que vemos nesse tema. A pessoa Ă© ofendida publicamente, registra o BO, sente que cumpriu sua parte e passa meses aguardando um contato da Justiça que nunca chega, enquanto o prazo de seis meses se esgota em silĂȘncio.

Vale lembrar ainda que cancelar um boletim de ocorrĂȘncia nĂŁo Ă© o mesmo que desistir de processar, e que ofensas praticadas em redes sociais tĂȘm particularidades prĂłprias de prova, como explicamos em crimes contra a honra nas redes sociais.

Quais crimes exigem denĂșncia e quais exigem queixa-crime?

Depende do tipo de ação penal previsto em lei para cada crime. Existem trĂȘs categorias, e nĂŁo duas, como se costuma imaginar:

Tipo de ação Como começa Exemplos
PĂșblica incondicionada DenĂșncia do MP, independentemente da vĂ­tima HomicĂ­dio, roubo, trĂĄfico de drogas, estupro
PĂșblica condicionada Ă  representação DenĂșncia do MP, mas sĂł apĂłs a vĂ­tima autorizar Ameaça, lesĂŁo corporal leve, estelionato
Privada Queixa-crime da vĂ­tima, com advogado CalĂșnia, difamação, injĂșria, dano simples

A categoria do meio Ă© a que mais passa despercebida. No crime de ameaça, por exemplo, o MinistĂ©rio PĂșblico sĂł age depois que a vĂ­tima manifesta formalmente a vontade de representar — salvo quando o crime Ă© praticado contra a mulher por razĂ”es da condição do sexo feminino, hipĂłtese em que a Lei 14.994/2024 tornou a ação incondicionada (art. 147, §§ 1Âș e 2Âș, do CP). 

TambĂ©m Ă© essencial saber que a lista mudou bastante nos Ășltimos anos:

→ A injĂșria racial deixou de seguir a lĂłgica dos crimes contra a honra. Com a Lei 14.532/2023, a conduta foi equiparada ao racismo, com pena mais alta e ação penal pĂșblica. Explicamos as mudanças em injĂșria racial e racismo.

→ O estupro passou a ser de ação penal pĂșblica incondicionada com a Lei 13.718/2018.

→ Na violĂȘncia domĂ©stica, o Supremo Tribunal Federal decidiu na ADI 4.424, em 2012, que a lesĂŁo corporal leve Ă© de ação pĂșblica incondicionada, sem depender de representação da vĂ­tima.

→ Nos crimes contra a honra de funcionĂĄrio pĂșblico em razĂŁo da função, a SĂșmula 714 do Supremo Tribunal Federal reconhece legitimidade concorrente: cabe queixa-crime da vĂ­tima ou denĂșncia do MP mediante representação.

Quando a lei nĂŁo diz expressamente qual Ă© a natureza da ação, presume-se que o crime Ă© de ação penal pĂșblica incondicionada. Na dĂșvida, a leitura do tipo penal Ă© o que resolve.

Qual o prazo para entrar com uma queixa-crime e como fazer?

A vĂ­tima tem seis meses, contados do dia em que descobre quem Ă© o autor do crime. O prazo estĂĄ no artigo 38 do CPP e no artigo 103 do CĂłdigo Penal. Passado esse perĂ­odo, ocorre a decadĂȘncia, e o direito de processar simplesmente deixa de existir.

E esse prazo Ă© mais rĂ­gido do que a maioria imagina. Em abril de 2026, o Superior Tribunal de Justiça reafirmou que ele Ă© peremptĂłrio: nĂŁo se suspende, nĂŁo se interrompe e nĂŁo se prorroga, nem mesmo quando muda a classificação jurĂ­dica atribuĂ­da ao fato. 

A decisĂŁo foi tomada no AgRg no AREsp 3.080.643/SE, julgado pela Sexta Turma em 14/4/2026, sob relatoria do ministro Rogerio Schietti Cruz, e consta do Informativo 887 do STJ.

Do lado do MinistĂ©rio PĂșblico, os prazos sĂŁo bem mais curtos: 5 dias com o rĂ©u preso e 15 dias com o rĂ©u solto, contados do recebimento do inquĂ©rito (artigo 46 do CPP).

Um cenĂĄrio recorrente: Marina foi acusada de desvio de dinheiro em um grupo de condomĂ­nio no WhatsApp. Registrou o BO no dia seguinte e ficou aguardando. Sete meses depois, ao procurar orientação, descobriu que a calĂșnia era de ação penal privada e que o prazo jĂĄ havia se esgotado. 

O BO existia, mas nunca houve processo. Ainda que a classificação mudasse depois, o prazo seria o mesmo. 

Para nĂŁo repetir esse caminho, reĂșna desde o primeiro dia:

Em ofensas na internet, vale considerar a ata notarial em cartĂłrio, que registra o conteĂșdo antes que ele seja apagado. Depois disso, o advogado elabora a queixa-crime e protocola no juĂ­zo criminal competente. 

Se quiser entender o conjunto de medidas possĂ­veis, incluindo a esfera cĂ­vel, veja os 10 direitos de quem sofre calĂșnia ou difamação e as novas formas de registro do boletim de ocorrĂȘncia.

NĂŁo deixe o prazo decidir pelo seu caso

Homem realizando denĂșncia ou queixa-crime com auxilio de advogada
NĂŁo deixe o prazo decidir pelo seu caso

Em Direito Penal, tempo é direito. Cada situação tem particularidades de prova, de enquadramento e de prazo que só uma anålise individual consegue esclarecer.

A equipe de Direito Criminal do VLV Advogados acompanha esse tipo de caso com atendimento online em todo o Brasil.

Se vocĂȘ tem dĂșvidas sobre denĂșncia ou queixa-crime, fale com um advogado. O VLV Advogados atende em todo o Brasil: clique aqui para falar com um especialista do VLV Advogados.

Artigo de carĂĄter meramente informativo elaborado por profissionais do VLV Advogados.

Sobre o autor

Dr. JoĂŁo Valença (OAB 43370) Ă© advogado e cofundador do VLV Advogados. Atua hĂĄ mais de 10 anos na defesa de clientes em todo o Brasil, com atendimento presencial e remoto. Sob sua liderança, o escritĂłrio acumula mais de 3.000 avaliaçÔes positivas e se tornou referĂȘncia nacional no atendimento jurĂ­dico digital.

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Perguntas frequentes sobre denĂșncia e queixa-crime

Preciso de advogado para entrar com queixa-crime?

Sim. A queixa-crime exige advogado com procuração que contenha poderes especiais, nos termos do artigo 44 do CPP. Quem nĂŁo tem condiçÔes de pagar pode procurar a Defensoria PĂșblica do seu estado. JĂĄ para registrar um boletim de ocorrĂȘncia ou comunicar um crime ao MinistĂ©rio PĂșblico, nĂŁo Ă© necessĂĄrio advogado.

Posso fazer uma denĂșncia anĂŽnima?

É possĂ­vel comunicar um crime de forma anĂŽnima, por canais como o Disque 181 ou as ouvidorias do MinistĂ©rio PĂșblico. Mas esse ato Ă© uma notĂ­cia-crime, nĂŁo uma denĂșncia em sentido tĂ©cnico. A denĂșncia continua sendo peça exclusiva do MinistĂ©rio PĂșblico, e a comunicação anĂŽnima serve como ponto de partida para apuração.

Perdi o prazo de seis meses. Ainda posso fazer alguma coisa?

Na esfera criminal, a decadĂȘncia extingue a punibilidade e nĂŁo hĂĄ como reverter. Ainda assim, a reparação por danos morais na esfera cĂ­vel tem prazo prĂłprio, de trĂȘs anos, e permanece disponĂ­vel em muitos casos. Vale uma anĂĄlise especĂ­fica antes de descartar qualquer possibilidade.

O MinistĂ©rio PĂșblico nĂŁo ofereceu denĂșncia. Tenho alguma saĂ­da?

Se o MP deixar passar o prazo legal sem se manifestar, a vĂ­tima pode propor a ação penal privada subsidiĂĄria da pĂșblica, prevista no artigo 29 do CPP. Ela nĂŁo se aplica quando houve arquivamento fundamentado, apenas diante da inĂ©rcia. É uma alternativa pouco conhecida e sujeita ao mesmo prazo de seis meses.

Fui denunciado. O que acontece agora?

ApĂłs o oferecimento da denĂșncia, o juiz decide se a recebe ou a rejeita. Recebida, vocĂȘ Ă© citado para apresentar resposta Ă  acusação, indicar testemunhas e juntar documentos. Esse Ă© o momento mais estratĂ©gico da defesa, como detalhamos em fui denunciado por violĂȘncia domĂ©stica, o que fazer. Havendo condenação, ainda cabe apelação criminal.

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Autor

  • joao valenca

    OAB 43.370 - Advogado especialista em Direito Criminal, especialista em Processo Penal e sĂłcio fundador do VLV Advogados, escritĂłrio de advocacia digital com mais de 10 anos de experiĂȘncia em atendimento em todo o Brasil.

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