Por que a delação de Vorcaro foi recusada pela PF e pela PGR 

Ex-dono do Banco Master segue preso e sem acordo depois de a PF e a PGR recusarem suas propostas de delação. Os motivos das recusas, o valor do que ele contou e as chances de um novo acordo.

imagem do Vorcaro que aguarda aprovação da sua delação premiada
Delação de Vorcaro perto de ruir: o que acontece quando a PF recusa o acordo

Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, continua sem acordo de delação premiada quase três meses depois de a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República recusarem sua segunda proposta. No mesmo inquérito, o ministro André Mendonça, do STF, homologou em 9 de setembro a delação de um empresário apontado como operador financeiro do ex-banqueiro.

A primeira proposta de Vorcaro foi recusada pela PF em 20 de maio. A segunda, apresentada no início de junho, foi rejeitada pela PF no dia 10 e pela PGR no dia 15.

Segundo os investigadores, o material não trazia fatos novos em relação ao que já tinha sido apreendido, e o ex-banqueiro não admitiu os crimes.

Vorcaro está preso preventivamente desde 4 de março de 2026, quando a PF deflagrou a terceira fase da Operação Compliance Zero. A operação investiga fraudes no Master e a tentativa de compra do banco pelo BRB. Os tópicos abaixo tratam dos motivos das recusas e mais.

Por que a PF e a PGR recusaram as propostas de Vorcaro?

As duas instituições apontaram problemas de conteúdo e de prova. As decisões estão sob sigilo, e os motivos conhecidos vêm de investigadores ouvidos pela imprensa.

Na primeira proposta, a PF avaliou o material como superficial e com omissões sobre aliados políticos do ex-banqueiro, segundo a CNN Brasil. A PGR viu inconsistências, mas também pontos que poderiam aprofundar a investigação, e manteve as tratativas abertas por mais tempo.

Depois da troca de advogados, a segunda versão chegou com anexos novos e mudanças em relatos já apresentados. Mesmo assim, investigadores entenderam que Vorcaro seguia escolhendo o que contar. Na PGR, a equipe examinou três pontos: 

  1. a consistência dos relatos, 
  2. a possibilidade de comprovar os fatos 
  3. e a utilidade das informações para a investigação. 

O relator, André Mendonça, havia sinalizado a interlocutores que preferia uma posição convergente dos dois órgãos. Os critérios seguem a Lei 12.850/2013. A lei exige que o acordo tenha utilidade e interesse público e obriga o colaborador a narrar todos os crimes.

O que aconteceu com Vorcaro depois das recusas? 

Vorcaro deixou a Superintendência da PF, onde negociava o acordo, e continua em prisão preventiva. Desde 19 de março, ele ocupava uma sala especial da superintendência, em Brasília.

Depois da primeira recusa, em maio, Vorcaro foi levado para uma cela comum da própria superintendência. A mudança foi revertida dias depois, com a troca de advogados e a sinalização de uma nova proposta. 

Com a segunda recusa, a PF pediu a retirada do ex-banqueiro, sob o argumento de que as celas do prédio atendem presos de passagem.

Em 25 de junho, Mendonça negou a prisão domiciliar e determinou a transferência, em até 24 horas, para o 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha. 

Uma cela comum foi descartada por risco à integridade física de Vorcaro. Como outros investigados da Operação Compliance Zero estão presos no mesmo local, a decisão determinou incomunicabilidade absoluta entre eles.

O que aconteceu com Vorcaro? A sequência dos acontecimentos após as recusas do acordo
1
19 de março Sala especial na PF

Vorcaro permanecia em uma sala especial da Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, enquanto negociava o acordo.

2
Maio Primeira proposta recusada

Após a primeira recusa, ele foi retirado da sala especial e levado para uma cela comum dentro da própria superintendência.

3
Dias depois Mudança foi revertida

Com a troca da equipe de advogados e a sinalização de uma nova proposta, Vorcaro voltou à condição anterior.

4
Segunda recusa PF pediu a retirada

A Polícia Federal solicitou a transferência, argumentando que as celas da superintendência são destinadas a presos de passagem.

5
25 de junho Prisão domiciliar negada

O ministro André Mendonça negou o pedido de prisão domiciliar e determinou a transferência em até 24 horas.

6
Situação definida Transferência para a Papudinha

Uma cela comum foi descartada por risco à integridade física. Também foi determinada incomunicabilidade absoluta com outros investigados presos no local.

O que Vorcaro disse nas propostas recusadas vale como prova? 

Não. Como a recusa partiu da PF e da PGR, as autoridades não podem usar as informações e provas que Vorcaro entregou de boa-fé nas negociações, para nenhuma finalidade. A regra está no art. 3º-B, §6º, da Lei 12.850/2013.

A proibição também alcança os trechos atribuídos às propostas que a imprensa divulgou em setembro. Publicados ou não, continuam sendo relatos de um acordo que não chegou a existir.

A lei trata a divulgação das tratativas como violação de sigilo e quebra da boa-fé, do recebimento da proposta até que um juiz levante o sigilo. 

No entanto, o material apreendido nas fases da Operação Compliance Zero e as provas que os investigadores obtiverem por outros caminhos continuam valendo. 

Mesmo uma delação homologada teria peso restrito: a lei proíbe prisão, bloqueio de bens, recebimento de denúncia e condenação com base apenas na palavra do colaborador.

Vorcaro ainda pode fazer delação premiada? 

Pela lei, pode. A Lei 12.850/2013 não limita o número de propostas e admite colaboração em qualquer fase, até depois da sentença. O acordo, porém, depende da PF e da PGR. Se a colaboração vier depois de uma condenação, o benefício é menor: redução de até metade da pena ou progressão de regime sem cumprir o tempo mínimo.

Negociar só com a polícia não resolveria a recusa da PGR. Em 2021, no caso Sérgio Cabral, a maioria do STF não aceitou uma delação firmada pela PF sem a concordância da Procuradoria.

Investigadores afirmaram que uma nova proposta pode ser analisada se trouxer informações novas, capazes de abrir outras frentes de investigação. Mendonça sinalizou que um acordo só deve avançar com fatos inéditos e de peso para a investigação.

Em agosto, a defesa pediu audiência com o ministro e acesso aos advogados por até seis horas diárias para refazer a proposta do zero.

Outros investigados do caso Master já fecharam delação?

Sim, um. O empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, é o único investigado do caso com delação homologada de que se tem notícia até esta atualização.

Apontado como operador financeiro de Vorcaro, ele negociou o acordo diretamente com a PGR. A colaboração trata de repasses do ex-banqueiro ao fundo Havengate, nos Estados Unidos, investigados como financiamento do filme Dark Horse.

Homologar não significa confirmar o que o delator contou. Nessa etapa, o juiz verifica se o acordo é legal e voluntário, e as declarações ainda precisam ser confirmadas por outras provas.

Conclusão

imagem representando decisão jurídica sobre delação
Está passando por um caso de investigação?

O caso segue em aberto. Vorcaro continua preso e sem acordo, e uma nova proposta só deve avançar se trouxer fatos que a PF e a PGR ainda não conhecem. 

Até esta atualização, a única delação homologada de que se tem notícia no inquérito é a de um operador financeiro do ex-banqueiro, e o que ele próprio contou nas tentativas recusadas não pode ser usado pelas autoridades.

Nota: este artigo tem caráter informativo e foi elaborado com base em informações divulgadas pela imprensa e na legislação vigente, com o objetivo de explicar os aspectos jurídicos do caso. 

O texto não emite juízo sobre a conduta das pessoas citadas, que têm direito à presunção de inocência, e não constitui aconselhamento jurídico para casos concretos.

 Sobre o autor

A equipe VLV Advogados é composta por redatores jurídicos e advogados especializados com atuação ativa nas áreas de Família, Previdência, Trabalho, Criminal e Cível. Todo o conteúdo é baseado em casos reais, jurisprudência atualizada e legislação vigente. 

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