Fideicomisso: o que é, exemplos e diferença do usufruto
Quer deixar um imóvel para um filho, mas garantir que ele chegue aos netos que ainda vão nascer? O fideicomisso é a cláusula de testamento que permite exatamente isso, dentro das regras do Código Civil.
Decidir quem ficará com um bem depois dos seus filhos é uma preocupação comum de quem pensa no futuro da família.
O Código Civil tem um instrumento criado para isso: o fideicomisso, uma cláusula de testamento em que o herdeiro recebe o bem com o dever de transmiti-lo, mais tarde, a outra pessoa.
O problema é que muitos conteúdos tratam o fideicomisso como uma ferramenta livre, que serviria para qualquer beneficiário. Não é assim. A lei impõe limites rígidos, e ignorá-los pode transformar o seu planejamento em algo bem diferente do que você imaginou.
Como o VLV Advogados atua em Direito de Família e Sucessões, preparamos este guia para mostrar como o fideicomisso funciona de verdade, com exemplos corretos e as diferenças em relação ao usufruto. Continue a leitura e descubra se ele faz sentido para a sua família.
Conhecer as regras antes de redigir um testamento ajuda você a tomar decisões mais seguras. Se quiser avaliar o seu planejamento com atenção, clique aqui para falar com um especialista do VLV Advogados.
O que é fideicomisso e como funciona?
Fideicomisso é a cláusula de testamento em que uma pessoa deixa um bem a um herdeiro, que fica com ele por um período e depois deve transmiti-lo a um segundo beneficiário escolhido no próprio testamento.
Também chamado de substituição fideicomissária, ele está previsto nos arts. 1.951 a 1.960 do Código Civil e envolve três figuras:
- Fideicomitente: quem faz o testamento e define as regras.
- Fiduciário: quem recebe o bem primeiro. Ele é dono, mas com propriedade restrita e resolúvel (art. 1.953), ou seja, uma propriedade com prazo para acabar.
- Fideicomissário: quem recebe o bem por último, quando o prazo ou a condição se cumpre.
Na prática, funciona assim: um avô deixa um imóvel ao filho e determina que, quando o filho falecer, o imóvel passe aos netos que ainda vão nascer.
O filho mora no imóvel e cuida dele como proprietário, mas sabe que o bem tem destino certo. Esse cuidado com a sucessão é o mesmo que orienta uma boa partilha de bens.
O caminho do bem no fideicomisso
Fideicomitente
Faz o testamento e define prazo, condição ou morte do fiduciário.
Fiduciário
Recebe o bem como dono, com propriedade restrita e resolúvel.
Fideicomissário
Recebe o bem por último. Precisa ser prole eventual.
E se o beneficiário já tiver nascido?
Ele recebe a propriedade na abertura da sucessão, e o fiduciário fica apenas com o usufruto (art. 1.952, parágrafo único, do Código Civil).
Quais são os tipos de fideicomisso?
Os tipos de fideicomisso são definidos pelo momento em que o bem passa ao fideicomissário. O art. 1.951 prevê três hipóteses:
- Por morte do fiduciário: o bem é transmitido quando o primeiro herdeiro falece.
- A termo: a transmissão ocorre em uma data ou prazo certo, como dez anos após a morte do testador.
- Condicional: a transmissão depende de um evento incerto, como o neto concluir um curso superior.
O que é a lei do fideicomisso?
A lei do fideicomisso é o próprio Código Civil, que regula o instituto nos arts. 1.951 a 1.960 e impõe regras que muitos conteúdos sobre o tema deixam de fora. As principais são:
- Só por testamento: o fideicomisso está entre as substituições testamentárias. Na doação, a cláusula de reversão em favor de terceiro não vale (art. 547, parágrafo único).
- Só para quem ainda não foi concebido: o fideicomissário precisa ser prole eventual, isto é, filho ainda não concebido de pessoa indicada no testamento e viva na abertura da sucessão (arts. 1.799, I, e 1.952).
- Prazo para a concepção: se o beneficiário esperado não for concebido em até 2 anos após a abertura da sucessão, a disposição perde efeito, salvo previsão diferente do testador (art. 1.800, §4º).
- Limite de segundo grau: são nulos os fideicomissos além do segundo grau (art. 1.959). O fideicomissário não pode ser obrigado a repassar o bem a uma quarta pessoa.
- Respeito à legítima: a cláusula só pode atingir a parte disponível do patrimônio, porque metade dos bens pertence aos herdeiros necessários (arts. 1.846 e 1.857, §1º).
Caso inspirado em situações atendidas pelo VLV Advogados:
Um cliente queria deixar uma casa de praia à filha, determinando que, após a morte dela, o imóvel ficasse com o neto, que já tinha oito anos.
Pela regra do art. 1.952, essa cláusula não funcionaria como fideicomisso: como o neto já era nascido, ele receberia a propriedade logo na abertura da sucessão, e a filha ficaria apenas com o usufruto.
Ao entender que o resultado prático seria esse, o cliente optou por estruturar o testamento diretamente com usufruto para a filha e nua-propriedade para o neto, dentro da parte disponível do patrimônio.
Assim, a vontade dele ficou clara e o risco de discussões futuras entre os herdeiros diminuiu.
O que pode mudar no fideicomisso com a reforma do Código Civil?
Com a reforma do Código Civil, o fideicomisso pode se tornar bem mais flexível, mas as regras só mudam se o projeto for aprovado. O texto do Projeto de Lei 4/2025 prevê, entre outros pontos:
- Beneficiários já nascidos ou concebidos, além de pessoas jurídicas.
- Fideicomisso por ato entre vivos, e não apenas por testamento.
- Empresas gestoras e instituições financeiras como fiduciárias, com possibilidade de remuneração.
- Inclusão expressa de bens digitais.
Em junho de 2026, o Senado prorrogou até dezembro de 2026 o prazo da comissão que analisa o projeto. Depois do Senado, o texto ainda precisa passar pela Câmara dos Deputados. Até lá, valem as regras explicadas acima.
Qual é a diferença entre usufruto e fideicomisso?
A diferença entre usufruto e fideicomisso é que, no usufruto, uma pessoa usa o bem e recebe seus frutos sem ser dona, enquanto no fideicomisso o fiduciário é proprietário, ainda que por tempo limitado. Veja os principais pontos:
| Critério | Usufruto | Fideicomisso |
|---|---|---|
| Quem é dono | O nu-proprietário. O usufrutuário só usa e recebe os frutos | O fiduciário (propriedade resolúvel) e, depois, o fideicomissário |
| Como é criado | Contrato, testamento ou lei | Apenas testamento |
| Quem pode ser beneficiário | Qualquer pessoa | O beneficiário final precisa ser prole eventual |
| Venda do bem | O usufrutuário não pode vender o bem | O fiduciário pode vender, mas a venda se desfaz com o fim do fideicomisso (art. 1.359) |
| Quando termina | Morte do usufrutuário, prazo, renúncia e outras hipóteses (art. 1.410) | Morte do fiduciário, termo ou condição |
Os dois institutos se encontram em um ponto decisivo: se o fideicomissário já tiver nascido quando o testador falecer, o fideicomisso se converte em usufruto (art. 1.952, parágrafo único).
O beneficiário recebe a propriedade, e o fiduciário fica apenas com o uso e os frutos do bem, como ocorre no usufruto vitalício.
“Antes de escolher o fideicomisso, confira se os beneficiários já nasceram. Se já nasceram, a lei transforma a cláusula em usufruto, e o testamento precisa ser pensado desde o início com essa consequência em mente”, orienta o advogado Dr. João Valença, cofundador do VLV Advogados.
Como cancelar fideicomisso?
Para cancelar o fideicomisso, é preciso que ocorra uma das hipóteses de extinção previstas no Código Civil e, no caso de imóvel, que essa extinção seja averbada na matrícula. As principais hipóteses são:
- Cumprimento do prazo, da condição ou morte do fiduciário: o bem passa ao fideicomissário.
- Renúncia do fideicomissário: o fideicomisso caduca e o fiduciário se torna dono pleno, salvo disposição contrária do testador (art. 1.955).
- Morte do fideicomissário antes do fiduciário ou da condição: o fideicomisso também caduca (art. 1.958).
- Renúncia do fiduciário: o fideicomissário passa a ter o direito de aceitar o bem (art. 1.954).
Na prática, o caminho costuma seguir estes passos:
- Identifique a hipótese de extinção e reúna os documentos: testamento, formal de partilha ou escritura do inventário, certidão de óbito (se for o caso) e matrícula atualizada do imóvel.
- Formalize a renúncia, se houver, por escritura pública ou termo judicial (art. 1.806).
- Peça a averbação do cancelamento no Registro de Imóveis onde o fideicomisso foi averbado (Lei 6.015/1973, art. 167, II, 11). Em casos como morte do fiduciário ou renúncia por instrumento público, nem sempre é preciso ir à Justiça.
- Procure o Judiciário se houver conflito, como divergência sobre a interpretação de uma cláusula.
A caducidade por morte do fideicomissário não é uma regra obrigatória: o testador pode prever substitutos.
Em caso julgado pela Quarta Turma do STJ, sob relatoria da ministra Maria Isabel Gallotti e noticiado pelo tribunal em fevereiro de 2014, os bens foram transmitidos aos filhos do fideicomissário falecido, como determinava o testamento.
Um bom testamento começa pelas regras certas
O fideicomisso é uma ferramenta útil para quem quer planejar a sucessão por mais de uma geração, mas tem limites claros: só existe por testamento e só beneficia quem ainda não foi concebido.
Fora disso, a cláusula pode virar usufruto ou perder efeito, e cada família exige uma análise própria do patrimônio e dos herdeiros.
O VLV Advogados já atendeu clientes em mais de 5 mil cidades, de forma online e presencial, e confira os estados atendidos.
Se você está pensando em incluir um fideicomisso no seu testamento, fale com um especialista do escritório para avaliar o seu caso. Clique aqui para falar com um especialista do VLV Advogados.
Artigo de caráter meramente informativo elaborado por profissionais do VLV Advogados
Sobre o autor
Dr. João Valença (OAB 43370) é advogado e cofundador do VLV Advogados. Atua há mais de 10 anos na defesa de clientes em todo o Brasil, com atendimento presencial e remoto. Sob sua liderança, o escritório acumula mais de 3.000 avaliações positivas e se tornou referência nacional no atendimento jurídico digital.
Direito Civil | Direito de Família | Direito Criminal | Direito Previdenciário | Direito Trabalhista | Direito Bancário
Perguntas frequentes sobre fideicomisso
Qual é o sinônimo de fideicomisso?
O sinônimo de fideicomisso mais usado no Direito é substituição fideicomissária, expressão que aparece no próprio Código Civil. Ela indica que um herdeiro é substituído por outro ao longo do tempo, em vez de os dois herdarem ao mesmo tempo.
Fideicomisso pode ser feito por doação?
Não, o fideicomisso não pode ser feito por doação no direito brasileiro em vigor, porque o Código Civil o prevê apenas entre as substituições testamentárias. Além disso, o art. 547, parágrafo único, impede na doação a cláusula de reversão em favor de terceiro.
O fiduciário pode vender o bem recebido em fideicomisso?
Sim, o fiduciário pode vender o bem recebido em fideicomisso, salvo se o testamento proibir, mas a venda também é resolúvel. Quando o prazo ou a condição se cumprir, o fideicomissário pode reivindicar o bem de quem o comprou (art. 1.359).
Fideicomisso é a mesma coisa que trust ou que o fideicomisso usado por empresas?
Não, o fideicomisso brasileiro não é a mesma coisa que o trust nem que o fideicomiso empresarial usado em países como Argentina e México. Aqui, ele é uma cláusula de testamento com regras rígidas, enquanto esses outros modelos podem ser contratos firmados em vida, inclusive por empresas.


